"O Espaço Litúrgico" - por Ir. Lídia N Awoki, pddm

         Cristo é o templo onde habita Deus e a comunidade, participando da sua vida e missão, se torna templo vivo e sua morada. O edifício é a casa da Igreja e a casa de Deus somos nós, a Igreja de pedras vivas, templo espiritual em processo de construção, para formar um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por meio de Jesus Cristo (cf. 1 Pd 2,5).
          Na história em geral e no Brasil o povo foi afastado do essencial, perdeu a referência da Bíblia e da liturgia como a fonte da espiritualidade, e as Igrejas em geral não foram construídas em função da participação litúrgica. Foram muitos séculos de separação entre liturgia e piedade até o Concílio Vaticano II valorizar o sacerdócio dos batizados e propor novamente a liturgia como fonte de espiritualidade e de vida cristã.
          O espaço litúrgico tem como finalidade primeira e fundamental estar a serviço da liturgia, da participação ativa e consciente da assembléia, inclusive dos seus ministros, na ação litúrgica. O espaço deve possibilitar e facilitar para que todos os participantes possam mergulhar no mistério celebrado, de modo que aconteça um encontro intimo entre os membros da assembléia entre si e com Deus.
          O papa Bento XVI, assim afirma: “A liturgia tem uma ligação intrínseca com a beleza. Na liturgia brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a si e nos chama à comunhão (...) A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. A beleza da liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra” (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 35). Esta afirmação do papa Bento nos ajuda a entender que, se o centro da nossa vida e da nossa liturgia não for o Mistério Pascal, o espaço o denuncia. Assim encontramos espaços onde o centro não é a mesa da eucaristia, centro do mistério pascal, mas a presidência, ou o padroeiro, Nossa Senhora ou o sacrário, os arranjos florais, ou ainda o dízimo. Temos que buscar a essência e a razão de ser das coisas, para sermos coerentes com o que celebramos e anunciamos, para que os espaços de celebração sejam belos e funcionais para a ação litúrgica.
          Falando em espaço litúrgico belo e funcional, o que garante esta funcionalidade?
·         A participação ativa e plena da assembléia dos pontos de vista visual e acústico, num ambiente acolhedor, cômodo e festivo;
·         O exercício das funções dos diversos ministérios;
·        A realização das diferentes celebrações: eucaristia, batismo, crisma, casamento, penitencia e, sobretudo nas catedrais, ordenações;
·         Deve haver uma sacristia onde se guarda e prepara tudo o que é necessário para as celebrações; preferível são duas, de uma das quais possam sair as procissões de entrada para a nave da igreja;
·         Para outras atividades da comunidade deveriam existir outros espaços, por exemplo: para catequese, as diversas pastorais, reuniões festivas e, não em último lugar, uma secretaria.
      
         Quando se respeita esta funcionalidade, se salva a dimensão do mistério do prédio da Igreja, então o edifício construído manifesta-se como:
·         Lugar da nova criação, a nova Jerusalém;
·          Lugar do homem novo: de Cristo que se faz carne e armou sua tenda entre nós, do corpo de Cristo com seus membros, que em parte estão a serviço uns dos outros;
·         Casa do Pai do céu, que aí acolhe seus filhos e filhas, os alimenta com o pão da Palavra e da Eucaristia, onde a assembléia e cada um podem conversar com ele, também em silencio e recolhimento;
·         Lugar de celebrar o domingo, nossa páscoa semanal e outras festas;
·         Lugar de descansar e recuperar as forças;
·         Lugar de antecipação do oitavo dia, do dia da eternidade.

          Uma coisa é certa, o espaço plenamente satisfatório, perfeito sob todos os pontos de vista, não existe e nunca existirá. Mas temos e podemos ter sempre igrejas que ajudam eficazmente aqueles que nelas celebram e rezam, a mergulhar cada vez mais profundamente no mistério de Cristo.

(Considerações baseadas na “Revista de Liturgia”, nºs 196, 205 e 207 da Congregação Religiosas Pias Discípulas do Divino Mestre).
Ir. Lídia Natsuko Awoki, pddm
Artigo publicado com a autorização da autora.