Fonte de Água Viva

Dom Alberto Taveira Corrêa, domalberto@fundacaonazare.com.br (Arcebispo de Belém)

"Irmãos e Irmãs: não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! Ajudai todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem o que é que está dentro do homem. Somente Ele o sabe!" Assim iniciou, em 1978, o Papa João Paulo II, o seu serviço apostólico de sucessor de Pedro. Diante de todas as pessoas, os cristãos são chamados a evangelizar, oferecendo o que de melhor descobriram em suas vidas, o encontro com Jesus Cristo, Redentor do mundo. Não há limites! Todos os campos da vida humana se abram para o Redentor.

Entretanto, sabemos que há muito receio diante do anúncio e do nome de Jesus Cristo, como existem resistências à Igreja. Temos consciência dos desafios à evangelização, assim como um leque aberto de questões novas e velhas que provocam a criatividade dos cristãos. A Igreja identificou algumas exigências ou modos para anunciar Jesus Cristo. Muitos o conhecem pelo anúncio explícito, na pregação vigorosa do nome de Jesus, que ressoa por toda parte e no correr dos séculos. Outras pessoas serão tocadas pelo testemunho de comunhão oferecido pelos cristãos unidos em nome do Senhor. No mundo inteiro, os cristãos são chamados a servir, e quantas são as expressões da caridade vivida, com a qual Jesus Cristo é testemunhado. Pelo diálogo aberto e sincero passará a estrada da conversão para uma larga e significativa porção da humanidade.

Impressiona-me sobremaneira o diálogo de Jesus com a mulher samaritana (Jo 4, 5-42), com o qual a Igreja começa a segunda etapa da Quaresma, na qual Jesus Cristo é apresentado como água viva, luz do mundo e Ressurreição e Vida. Na conversa com aquela mulher nos encontramos e descobrimos os caminhos para chegar a tantas pessoas temerosas de acolher o Salvador.

O diálogo começou com questões domésticas, com poço e balde, passou por assuntos de religião até chegar à vida da mulher samaritana. Diálogo que se preze começa com ouvido e não com a fala interminável que exige compreensão. Trata-se de acolher a outra pessoa como quem que faz parte de mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade (Cf. Novo Millenio ineunte 43). Jesus Cristo foi ao encontro da situação da samaritana, escutou-a profundamente e refez com ela o caminho, ele que descia do alto e conhecia o coração humano. Foi-lhe possível até mostrar às claras, sem acusações, uma história cheia de dramas, para abrir-lhe a estrada da esperança.

A samaritana encontra Jesus junto ao poço de Jacó. Uma mulher na rotina monótona de sua vida. Descobre a existência do pecado, a própria fraqueza e a exploração de que é vítima. No fundo, uma grande insatisfação e a sede de felicidade e de paz, o desejo de uma nova vida, na qual se sinta restaurada em sua dignidade. Chama-se Salvação esta novidade! Nessa mulher estão todos os nossos sonhos, todo o nosso desejo de graça e salvação.

Só a presença e a pessoa de Jesus a fazem descobrir algo de novo e melhor. No coração da samaritana e em sua situação de amargura, na qual se encontrava mais ou menos acomodada, o Mestre escava para fazer brotar uma fonte de água, fazendo-a descobrir a si mesma a partir de sua própria humanidade e se realiza o encontro da salvação. E Jesus se revela fonte de água viva que jorra para a vida eterna, fonte do Espírito Santo. Ele é o novo Moisés que toca com a força de sua palavra a rocha do coração da mulher. Jesus perdoa o pecado e dá um novo sentido à existência, fazendo-a portadora da novidade que brotara de seu próprio poço interior, cavado com delicadeza. Ele muda, converte e é fonte de felicidade.

Há muitos poços de Jacó espalhados pelas nossas cidades, esperando alguém que chegue em nome de Jesus Cristo para escutar e refazer estradas, sem medo de ir ao fundo das interrogações humanas. Há gente com sede de água viva gritando por socorro, clamando por cristãos que aceitem ser pequenos e simples, começando de novo, sem se escandalizarem com histórias de dor e lágrimas. Saibam os que acolherem o convite que podem estar escondidas por estas paragens muitas pessoas que no futuro dirão como os concidadãos da mulher samaritana. "Já não é por causa daquilo que contaste que cremos, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jo 4, 42).