Quando a quaresma começa antes - Ricardo L. Lobosco*

O Carnaval é uma festa conhecida de longa data. Desde a Antiguidade, há vasta documentação da realização de festas, onde se comia, bebia e participava de alegres celebrações e busca incessante dos prazeres. O Carnaval prolongava-se por sete dias na ruas, praças e casas da Antiga Roma. Há notícias, entretanto, que o Carnaval, nos moldes que o conhecemos, nasceu no século XI, quando a Igreja organizou seu calendário litúrgico de modo a celebrar uma semana “santa” (em memória dos últimos dias da vida de Jesus). Tal semana seria preparada por um período simbólico de quarenta dias de jejum e oração (a Quaresma), que, naturalmente, incentivou uma série de festejos populares anteriores a essa jornada de privações que possibilitavam o deleite dos mais variados prazeres. Daí “canis valles” – prazeres da carne. O carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador dessa festa carnavalesca para o mundo.

A data do Carnaval é móvel porque todos os feriados eclesiásticos são calculados em função da data da Páscoa, com exceção do Natal. Como o domingo de Páscoa ocorre no primeiro domingo após a primeira lua cheia que se verifica a partir do equinócio do outono (no hemisfério sul), e a sexta-feira da Paixão é a que antecede o Domingo de Páscoa, então a terça-feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa.

Ainda que de modo velado, o Carnaval de hoje guarda a ideia germinal da festa de outrora. Dias de extravagância e alegria em meio a uma série de compromissos e exigências que parecem escravizar e inibir a felicidade das pessoas. Se para um indivíduo religioso, o Carnaval simbolizava o ingresso numa sequência de semanas de jejum preparatório para a Paixão ritual, para o homem moderno significa uma espécie de “parênteses” na rotina que oprime e insensibiliza.

Em Nova Friburgo, o Carnaval de 2011 foi bem diferente, aparentemente. Pelas ruas, não se via nenhum movimento próprio dos dias de folia. Além da chuva mansa e constante, as ruas testemunharam uma cidade parada e calada. Não houve desfiles, danças, brincadeiras e algazarras. A cidade parece ter feito seu jejum quaresmal antes do tempo.

A mim pareceu que a cidade encontrou um tempo para “respirar” depois de tanta dor e tanto desalento. As chuvas de 11 de janeiro, que fizeram desmoronar e alagar mundos inteiros, forçaram um processo de luta e trabalho que fez com que muitos se vissem sem forças e sem esperança, inclusive. Gente que perdeu tudo (inclusive e sobretudo gente amada).

Olhando por este ângulo, o Carnaval, mais uma vez, cumpriu seu desígnio originário. Foi um tempo de faz-de-conta em meio ao ordinário dia-a-dia de luta e sofrimento. Em geral, é tempo de folia e brincadeira; mas, para quem vive tão intensamente dor e trabalho, o Carnaval foi um tempo de descanso e reflexão. Um faz-de-conta antes de voltar a rotina cansativa de quem tem tanto por fazer e tão pouco por esperar.

O silêncio dos dias de folia foi uma espécie de sacramento da dor. Lembro-me do apóstolo São Paulo que, sabiamente, escreveu: “Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2 Coríntios 7,10).

Sacramentos são sinais visíveis de algo maior e mais abrangente, que opera de modo invisível. A dor é assim mesmo. Invisível, porém, real como poucas coisas são.

Valho-me do raciocínio do Rubem Alves (poeta de tantas dores) para ajudar a clarear o que significa o paradoxo de Paulo. A presença divina nunca é presença observadora: a presença divina é sempre dor ou alegria de Deus. A tristeza do mundo é aquela que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar. É tristeza que paralisa no remorso, na lástima, no mórbido ruminar as faltas passadas, na lamuria sem fim. Nada se transforma, nada se metamorfoseia, nada muda. É tristeza que não conhece a esperança, o futuro, por estar afogada no passado. É Tristeza que mata, que corrói, que faz adoecer. A tristeza segundo Deus, todavia, produz mudança, movimento, superação, transformação; produz vida. É tristeza que não patina nas culpas, mas avança na responsabilidade. Tristeza da dor de parturiente, que traz a esperança e o futuro no ventre. É tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignação, o grito, a libertação. Sem a participação na tristeza divina, o domingo da ressurreição não passa de oba-oba.

Nova Friburgo “patina” entre a dor segundo o mundo e a dor segundo Deus.

Cabe-nos, filhos da serra, escolher (se é que isso nos é possível) escolher o rumo da dor de cada dia que nos acompanhará por longos dias! Não vale alimentar ilusões como se fossem guerra de confete e serpentina. Há que se olhar, realmente, para a realidade! Do contrário, daqui a seis ou sete semanas, nossa Páscoa não passará de uma ilusória festa de coelhinhos e oba-oba.

* Ricardo Lengruber Lobosco é pastor metodista e professor de Teologia Bíblica no Instituto Metodista Bennett e na Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente, atua como presidente da ABIB - Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (www.abiblica.org.br).

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