Paciência de Deus

Dom Alberto Taveira Corrêa
ARCEBISPO METROPOLITANO DE BELÉM DO PARÁ

A pressa é inimiga da perfeição! A frase é aplicada com frequência, especialmente quando se trata de defender nossas demoras pessoais, quem sabe marcadas pela falta de prontidão e presteza para servir e fazer o bem. Muito mais difícil é entendê-la quando se trata da ação de Deus no mundo. Consideramos muito lentas suas intervenções. Pode até existir gente que gostaria de ver um fogo descendo do céu para assustar as atuais gerações, tão carregadas de maldades, revoltas, desvios de conduta, pecados. Só que ganhar o jogo da história no grito não é próprio de Deus. Ele criou o mundo, mas nos deu o precioso e arriscado dom da liberdade, com o qual haveremos de administrar nossa maravilhosa aventura neste mundo ainda que muitas vezes ela se parece com um brinquedo novo que nós, crianças crescidas, não sabemos usar.

A Sabedoria de Jesus, e Ele mesmo é "sabedoria de Deus" (1 Cor 1, 24), nos conduz a refletir sobre os rumos da história humana, com seus eventuais tropeços. Deus criou tudo para o bem, mas sabe que nem tudo o que cresce, com a pregação do Reino, é trigo limpo (Mt 13, 24-43). Haverá, sim, o dia da justiça, mas, até lá, é dada sempre uma oportunidade a tudo o que cresce ao lado do bem. O mal existe e é real, não nos enganemos e nem queiramos pintar com belas cores o que existe de errado, forjando e forçando as consciências. Ele existe em torno de cada um de nós e dentro de nós. A linha divisória entre o bem e o mal passa dentro de nossos corações. Sabendo da existência do mal, o importante é escapar de seu poder, lutando para manter a verdade e o bem dentro de cada pessoa humana e ao seu redor.

"O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai".

A bondade, como o trigo da parábola contada por Jesus, é destinada a permanecer por toda a eternidade. No tempo que corre, o destino do bem é conviver com o mal sem converter-se no mal. A paciência de Deus é escola para todos os homens e mulheres que professam a fé. Alguns passos podem ser dados, com a luz do Evangelho.

A primeira atitude é olhar para dentro e reconhecer que muitas vezes praticamos o mal e compactuamos com o mal. Nossos pecados não são somente de fraqueza, mas muitas vezes somos até sórdidos ao tramar a maldade. Ao reconhecimento se siga a confiança na misericórdia de Deus. "Perdão é feito pra gente pedir", já cantava um samba de Ataulfo Alves e Mário Lago em 1944. Pecado reconhecido e confessado, pecado absolvido, pecado superado. Vida nova, coragem, vigilância na oração.

Olhar com misericórdia as pessoas que erram, levantar os caídos, oferecer o perdão e reconhecer a chama que ainda fumega naqueles que são frágeis. É o segundo capítulo da aventura do perdão. E se as aproximarmos de Deus será a perfeita alegria, para que experimentem um perdão infinito, muito mais eficaz do que as eventuais ajudas humanas. Deus leva a sério o pecador, pois ele o quer reconciliado e reintegrado em sua amizade.

Se o mundo pode ser melhor em torno a nós, outro passo será a contribuição para restaurar o tecido social. Aqui se joga com o terrível mal da omissão e da indiferença, cuja superação está nas mãos da atual geração. O ambiente de trabalho é desafio para o cristão, que não pode fugir de sua responsabilidade. Os locais mais desafiadores, como as Universidades, os Parlamentos, os Organismos de Classe, as Repartições públicas, precisam de homens e mulheres que se disponham a dar o primeiro passo, mesmo considerado pequeno. Trata-se do mistério do fermento, da semente, do sal e da luz (Cf. Mt 13, 31-33). Imagens fortes do Evangelho, cuja mensagem nos converte em agentes corajosos, prontos a dar o primeiro passo, para que o mundo seja diferente.

Mas certamente deveremos ainda e até o fim dos tempos conviver com o joio presente no mundo. Para aprender da paciência de Deus, vale acolher as palavras do Livro da Sabedoria: "Dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração: pois quando quiseres, está ao teu alcance fazer uso do teu poder. Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores" (Sb12, 18-19).

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