Há lugar para todos

Dom Alberto Taveira Corrêa
ARCEBISPO METROPOLITANO DE BELÉM DO PARÁ

No mundo do trabalho, dois movimentos chamam a atenção. De uma parte, as pessoas que buscam emprego estável e seguro, com uma ainda grande massa de trabalhadores sem tal importante garantia. Por outro lado, o recrutamento de pessoal pelas empresas, com os processos seletivos cada vez mais exigentes. Valem a escolaridade, as experiências anteriores, a ficha de apresentação e daí por diante.

Trata-se do dinamismo da sociedade, nem sempre marcado pelos critérios da justiça e da equidade, mas a "máquina" funciona. Cabe-nos a necessária vigilância, para iluminar com os critérios do Evangelho os processos sociais. Faz-se então necessária uma crescente capacidade de diálogo e a presença cristã nas associações de classe, com o consequente fermento presente na massa, com a certeza da transformação para o bem, garantida pelas promessas do Senhor. Quem tem a graça de estar presente em tais organismos reveja, à luz do Evangelho, a qualidade de seu testemunho.

No Reino de Deus não há excesso de mão-de-obra, mas lugar para todos! De fato "os fiéis leigos pertencem àquele Povo de Deus que é representado na imagem dos trabalhadores da vinha, de que fala o Evangelho de Mateus: 'O Reino dos Céus é semelhante a um proprietário, que saiu muito cedo, a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a vinha' (Cf. Mt 20, 1-16). A parábola do Evangelho abre aos nossos olhos a imensa vinha do Senhor e a multidão de pessoas, homens e mulheres, que Ele chama e envia para trabalhar nela. A vinha é o mundo inteiro (Cf. Mt 13, 8), que deve ser transformado segundo o plano de Deus em ordem ao advento definitivo do Reino de Deus. 'Ao sair pelas nove horas da manhã, viu outros, que estavam ociosos, e disse-lhes: "Ide vós também para a minha vinha'. O convite do Senhor Jesus: 'Ide vós também para a minha vinha' continua, desde esse longínquo dia, a fazer-se sentir ao longo da história: dirige-se a todo homem que vem a este mundo. Nos nossos dias, a Igreja do Concílio Vaticano II, numa renovada efusão do Espírito de Pentecostes, amadureceu uma consciência mais viva da sua natureza missionária e ouviu de novo a voz do seu Senhor que a envia ao mundo como sacramento universal de salvação. 'Ide vós também'. O chamado não diz respeito apenas aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para a Igreja e para o mundo. Lembra-o São Gregório Magno que, ao pregar ao povo, comentava assim a parábola dos trabalhadores da vinha: 'Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos, e vede se já sois trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que faz e veja se trabalha na vinha do Senhor' (João Paulo II: Christifideles laici 1-2)".

Em tempo de Círio, impressiona-me ver a quantidade de pessoas que se envolvem, desde as que trabalham diretamente em sua preparação, como Diretoria, Guardas e outras instituições da Igreja, passando pelos grupos diversos, repartições públicas, universidades, escolas, presídios, Hospitais, os que adornam a cidade, para depois chegar ao verdadeiro presépio de devoção, que são as casas das família paraenses. Ninguém resiste ao Círio! A Igreja de Belém convoca de novo a este grande e singular mutirão. Ninguém pode ficar de fora.

É uma grande oportunidade para que, como os operários da Parábola contada por Jesus, todos os fiéis descubram o seu lugar. Muitos terão tarefas internas na Igreja, como catequistas, ministérios e serviços, coordenação de comunidades ou vocações ao sacerdócio, à vida religiosa e missionária ou à consagração em comunidades novas. Outros sentirão o chamado a testemunhar o Evangelho no meio da sociedade, para suscitar a pergunta sobre a esperança que trazem do coração. Nem sempre serão conhecidos ou reconhecidos, mas seus nomes estão escritos no Céu! Não são poucas aquelas pessoas que viverão apenas e só o Evangelho, como pais e mães de família ou outros estados de vida, conhecidas, sim, por Deus. Elas preparam a lista de surpresas que teremos ao chegar diante de Deus, pois o número dos santos escondidos será muito maior do que imaginamos.

Quem é o maior ou quem é o menor? Quem merece maior salário do "dono da vinha"?. Qual é a medida do trabalho pelo Reino de Deus? Afastem-se das comunidades cristãs a inveja e o ciúme, superem-se os rolos compressores ideológicos, que pretendam nivelar as pessoas segundo as próprias medidas. Na Igreja há lugar para todos os que querem seguir a Jesus Cristo com sinceridade e verdade. Nela há lugar para todos nós que sabemos ser pecadores, mas fomos tocados pelo bálsamo da misericórdia.

Da Igreja nasçam os batalhões de discípulos missionários para o "Projeto Igreja de Belém em Missão". Apresentem-se os voluntários que prepararão conosco o XVII Congresso Eucarístico Nacional, a ser celebrado no ano do quarto centenário de Belém, de 15 a 21 de agosto de 2016. E do Círio de Nazaré que preparamos, saiam do meio da multidão muitas pessoas que serão tocadas pela irresistível graça da devoção mariana, dispostas a acolher a palavra de Nossa Senhora: "Fazei tudo o que Ele vos disser" (Jo 2, 5).