Perdoar sempre?

Dom Alberto Taveira Corrêa
ARCEBISPO METROPOLITANO DE BELÉM DO PARÁ

O coração de Deus é apaixonado pelo ser humano, criado por Ele à sua imagem e semelhança. Deus não nos ama porque sejamos amáveis, mas para que sejamos bons. Seu amor é gratuito. Esta paixão de amor se manifesta de modo único na misericórdia, com a qual as feridas são sanadas e todos podem erguer-se do chão pisado dos próprios pecados. Ele põe num prato da balança nossas falhas e no outro a obra de suas mãos, para dizer, continuamente, que somos mais importantes do que todos os limites. Acreditar no Pai misericordioso!

Trata-se de uma história de salvação a que Deus constrói conosco, infinitas vezes renovada quando dele nos aproximamos. Desde o princípio, os apóstolos de Jesus e seus discípulos de todos os tempos tiveram que entrar nesta aventura da misericórdia. Em nome dos outros, coube a Pedro perguntar a Jesus sobre a "contabilidade" da misericórdia (Cf. Mt 18, 21-35). O perdão recebido de Deus há de ser repartido setenta vezes sete vezes! É para trazer os critérios do Céu à terra. Como Deus nos deu o precioso dom da liberdade, assenta-se conosco à mesa da vida para barganhar! Doa uma misericórdia infinita, mas exige a contrapartida. Quer uma opção consciente pelo perdão e pela misericórdia, de cuja presença o mundo tem sede e fome. Escolher o caminho do perdão!

A prática se inicia em casa, estende-se ao trabalho e à convivência comunitária e social. Dar o perdão e pedir perdão é um bom começo. Quem espera o esquecimento para dizer que perdoou as faltas alheias não entendeu a misericórdia. Merecimento tem quem acolhe a outra pessoa mesmo lembrando as ofensas! E esta é uma verdadeira ginástica, que pede muitas vezes esforço hercúleo, de homens e mulheres fortalecidos pelo Espírito Santo, dispostos a acolher este dom vindo do alto. Dar o primeiro passo!

"O rancor e a raiva são coisas detestáveis; até o pecador procura dominá-las... Lembra-te do teu fim e deixa de odiar, pensa nos mandamentos e não guardes rancor ao teu próximo" (Cf. Eclo 27,33-28,9). Acalmar a ira é outro passo. Há pessoas que se exercitam no autocontrole dos impulsos naturais da raiva. Não se trata apenas de "contar até dez", mas olhar as pessoas e os acontecimentos com os critérios de Deus, descobrindo que em todos existe uma marca de bondade, maior do que o mal que assola. Abrir-se para a cura que Deus quer realizar!

Temos à disposição, pela bondade de Deus, o Sacramento da Reconciliação ou Penitência, a Confissão. Quando redescoberto, procurado e aproveitado, é instrumento precioso, oferecido por Deus, através de sua Igreja, para a cura dos corações feridos, com o qual é possível dizer com o salmista "Lava-me de toda a minha culpa, e purifica-me de meu pecado. Reconheço a minha iniquidade e meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, só contra ti eu pequei, eu fiz o que é mal aos teus olhos; por isso és justo quando falas, reto no teu julgamento. Eis que na culpa fui gerado, no pecado minha mãe me concebeu. Mas tu queres a sinceridade do coração e no íntimo me ensinas a sabedoria" (Sl 50, 4-8). Quem não o procura desperdiça a oportunidade única da graça. E sabemos que de um modo ou de outro as pessoas acabam falando de seus problemas. Mas é só no Sacramento que se pode ouvir a sentença da misericórdia: "Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". Celebrar a misericórdia no Sacramento!

Abrindo os braços para a sociedade, muitas vezes nos assusta a impressão de que quase sai sangue dos noticiários, tal a preferência pelo mal a ser apregoado, cabe aos cristãos nadar contra a correnteza, fazendo propaganda do bem! Há alguns meios de comunicação que começam a desenvolver uma agenda positiva, comprometendo-se a fazer com que o bem faça notícia. A melhor forma de vencer o mal é justamente valorizar o bem existente em nossos ambientes. Do fundo do mar em que o homem bíblico via uma imagem do mal, emerge como ponta de um iceberg a força da marca criadora de Deus, que fez a todos para a realização e a felicidade. O bem é maior do que o mal!

Muitos terão condições de intervir nas estruturas da sociedade, para mediar os conflitos entre pessoas e grupos, exercendo um papel de inestimável valor. É o perdão em processo! E ainda, a Igreja Católica presta serviços de alcance internacional, através da Diplomacia Vaticana, considerada a mais competente, facilitando o diálogo entre os povos, tecendo os fios da reconciliação e da fraternidade universal. Entre pessoas e povos, perdoar sempre!