Nosso coração, um presépio

Estamos vivenciando mais um tempo de Advento, espera ativa daquele que veio, que vem e que virá. Verbum caro factum est (o verbo se fez carne), nos comunica o evangelho joanino. E nós? Como estamos nos preparando para celebrar o santo Natal? Será que as luzes de nossas árvores, das decorações de nossas casas, das ruas e lojas refletem a luz que vem de dentro de nosso coração? Será que nos identificamos mais com o velhinho gordo do shopping center que expressa tão bem o consumismo ou com o menino pobre que, distante de casa, nasce em uma estrebaria? Estamos mais para nos encher de presentes, muitas vezes para compensar nossas ausências ou erros ou para nos esvaziar do egoísmo, de nossa arrogância e orgulho para partilhar o que temos com aqueles que não podem nos devolver nada mais que um singelo "obrigado" ou "Deus lhe pague"?

Penso que certas decorações das casas refletem a personalidade de seus moradores; umas diretamente, outras, de forma inversa . Há casas com tantas luzes e enfeites que parecem mais comemorar fevereiro que dezembro e diante delas, me questiono se as pessoas que moram ali também estão sendo luzes em nossa sociedade, sendo anunciadoras da graça ou propagadoras das sombras.

Vejo tantos "bons velhinhos"; subindo escadas, dançando, tocando guitarras; em todos os tamanhos e formas; em vermelho, verde, dourado. Gnomos, elfos, bonecos de neve, cervos, ursos, "criaturas da floresta"; enfim, uma infinidade de "intrusos" em uma festa cujo aniversariante; às vezes, sequer é convidado e em algumas ocasiões é até ignorado. A grande ausência é justamente d'Ele, de sua sagrada família, da cena tão belamente retratada na canção "Noite Feliz", nos presépios franciscanos. E, assim como nas decorações, muitas vezes Ele também não foi convidado a entrar nas nossas casas, nas nossas famílias, no coração dos homens.

São tão poucos presépios e, em geral, diminutos, ante a grandiosidade das árvores com seus penduricalhos. São poucos e tímidos, perante tantos outros ícones em vermelho e branco que parecem querer fazer do calor amazônico um clima propício para nevar em pleno ver-o-peso. Mas, ainda é tempo. Precisamos reunir os amigos, os parentes, fazer a novena de Natal, partilhar o que temos no projeto "Belém, Casa do Pão", que este ano tem ainda mais famílias para ajudar a passar um Natal mais humano, mais digno, mais cristão. Nosso coração precisa urgentemente ser um presépio, ornado com as flores do perdão, do serviço ao outro, incensado como o olor do céu, que vem da caridade.

Precisamos resgatar o verdadeiro sentido do Natal. Como Maria, nos esvaziarmos de tudo o que impede de recebermos a graça, do que nos afasta de Deus, para nos enchermos do Espírito. É necessário que paremos, nem que seja um pouco, nestes dias que antecedem o Natal; diante do espelho, diante do outro, diante de Cristo, para sentirmos a presença d'Ele naqueles que continuam com fome ou sede, nos que estão presos, enfermos, sem roupa, sem acolhida. Este é o Natal, a luz que brota de dentro do coração de cada homem e mulher, de cada criança, jovem, adulto, idoso, negro ou branco, rico ou pobre, daquele que compreendeu o valor do encontro com o Cristo.



Leno Carmo
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