A VOLTA DOS NOVIÇOS*

Nos anos 90, o Mosteiro de São Bento da Bahia, o mais antigo do Brasil, quase fechou as portas por falta de monges. Hoje, está de novo cheio, confirmando as estatísticas que apontam para o crescimento da vocação religiosa no país

O baiano João Batista Santos se define como o tipo que "gostava de aproveitar a vida". De famí­lia abastada. era solteiro convic­to e mulherengo. Engenheiro químico, administrava o escritório em Salvador da empresa do padrasto, que mora em Mia­mi com a família. Há quatro anos, João Batista virou a própria vida pelo avesso. Para espanto dos amigos, tomou-se mon­ge beneditino do Mosteiro de São Bento da Bahia Fez votos de castidade, de po­breza e se enclausurou. Aos 45 anos, ago­ra é irmão João Batista Ao chegar ao mosteiro, ele acreditava que seria uma das raras almas a procurar o claustro. Surpreendeu-se com o numero de aspi­rantes a monge. "Nunca há menos de uma dezena de candidatos, e. quando um desiste, logo outro entra no lugar", ele ob­serva Fazia décadas que o Mosteiro de São Bento da Bahia não atraía tantos inte­ressados. Na década de 90, quase fechou as portas - contava com apenas dezoito religiosos, a maioria com mais de 50 anos. Hoje, abriga 34 monges, com média de idade de 30 anos.

O renascimento do Mosteiro de São Bento da Bahia, fundado em 1 582 e o mais antigo em atividade no Brasil, ilus­tra o recente crescimento da vocação re­ligiosa no pais, após um longo período de declínio. Entre 1970 e 1980, o Brasil perdeu 400 sacerdotes, embora a popula­ção tenha aumentado 28% no período. Desde o fim da década passada, esse crescimento é substancial - o número de sacerdotes passou a subir em um rit­mo próximo de 5% ao ano. Hoje, há 22000 no pais. Recorda o sergipano dom Gregório Paixão, de 47 anos, bispo de Salvador e monge do Mosteiro de São Bento: "Resistimos à invasão holandesa da Bahia, no século xvn, e à ditadura mi­litar, que combatemos. Mas quase fecha­mos as portas na década de 90, por falta de monges". Na estrutura do catolicis­mo, a principal diferença entre os mon­ges e os padres é que os primeiros vivem em reclusão e só os segundos têm o di­reito de celebrar missas e ouvir confis­sões. Mas há monges que também são padres, adquirindo esses direitos. Há ou­tras ordens católicas além dos beneditinos, como os franciscanos e os canneli­tas, com poucas diferenças no que diz respeito ao modo de vida .

Para entender o que tem seduzido os jovens para a vocação religiosa, VEJA acompanhou a rotina dos monges do Mosteiro de São Bento da Bahia durante três dias. Neste ano, a instituição' com­pleta 430 anos. O aniversário foi come­morado com o lançamento do livro O Mosteiro de São Bento da Bahia, que conta sua história. No próximo domingo de Páscoa, os religiosos também vão ce­lebrar o aniversário em uma festa priva­da. O mosteiro ocupa uma área de 20000 metros quadrados, onde mantém uma igreja, um colégio e uma faculdade. Ele tem status de abadia, conferido às casas com ao menos doze monges e um abade designado pelos beneditinos. Um passo decisivo para atrair vocações para a ins­tituição foi aproximá-la do universo dos jovens. Hoje, o mosteiro conta com um síte, alguns monges têm celular, e-mail e perfil em redes sociais, e os agentes vo­cacionais procurando aspirantes pela web.

Na busca por noviços, foi feito também um esforço de aproximação com as camadas mais pobres da popu­lação. Afirma o abade Emanuel d' Able do Amaral: "Desde a fundação do mos­teiro até meados dos anos 70, os candi­datos vinham principalmente de famí­lias abastadas. Éramos influentes na vi­da política do país e existia a tradição de que os pais de família mosteiro agora provém de famílias po­bres, uma tendência que se percebe em todo o Brasil. Sete em cada dez sacer­dotes vêm hoje da zona rural ou das pe­riferias das cidades. "Grande parte dos jovens enxerga na paróquia uma chance de crescer na vida", analisa Fábio Cas­tro, coordenador do Censo Anual da Igreja Católica. Os novatos não admi­tem a ambição, mas ela é evidente. O sergipano Anderson Oliveira, de 19 anos, postulante à vida monástica em Salvador, é um exemplo. Ele, que no monastério adotou o nome de Leonardo (todo monge tem de escolher o nome de um santo para substituir o de batismo), é de uma família pobre de Poço Verde, cidade com 20000 habitantes. Irmão Leonardo admite: "Senti um impacto ao deparar com a riqueza do mosteiro e sei que aqui posso estudar e aprender'. No mosteiro, os recém-chegados cursam duas faculdades, filosofia e teologia, e estudam línguas estrangeiras. Dom Gre­gório Paixão, modelo para os postulan­tes, é músico, filósofo, teólogo, antro­pólogo e dá aulas na Universidade Livre de Amsterdã, na Holanda. Apesar de pouco saírem da clausura, é normal que os mais experientes viajem para estu­dar, principalmente para a Europa.

Mesmo com essa perspectiva de crescimento, a maioria dos que tentam a vida monástica acaba desistindo nos primeiros anos. Resume o abade Ema­nuel: "Eles chegam fugidos de uma vi­da pobre ou buscam abrigo quando es­tão solitários e acabam cedendo ao mundo exterior'. O baiano João Batis­ta, citado no início da reponagem, con­fessa que recorreu ao mosteiro em um momento de solidão, quando sua famí­lia se mudou para os Estados Unidos. A vida não é fácil para quem vem de fora. O sino de despertar toca às 5h15. Vinte minutos depois, outro sino os convoca para orar. Entre 6h15 e 6h45, os mon­ges voltam às celas, nome que dão aos quartos. Às 7 horas há uma missa. En­tre 8 e 8h30 eles tomam o café da ma­nhã. Guardam silêncio nas primeiras três horas do dia e só são liberados para conversar após o café da manhã. Depois dessa refeição, trabalham. Uns cuidam das finanças, outros da jardina­gem, alguns dão aulas. Durante a tarde, rezam mais duas vezes. A rotina se en­cerra às 19h15, com uma última ora­ção. Os monges só saem à rua para resolver problemas do mosteiro e ques­tões pessoais urgentes. A exceção é aos ~ sábados, quando são liberados para ~ passear e até tomar uma cervejinha. ::li Mesmo assim, a maioria prefere ficar ~ no mosteiro. Os monges .mais experientes dizem que a rotina já foi mais rígida no passado. Agora há computa­dores, revistaria, academia de ginásti­ca, sala de TV e outras comodidades - tudo para atrair os jovens para a clausura. Vem dando certo.


* Reportagem publicada na Revista VEJA - edição 2262 - ano 45 - nº 13 de 28 de março de 2012 - p. 110-112.