Discernimento Vocacional

Discernir - Definição e Pistas

O discernimento vocacional consiste em ajudar o vocacionado a fazer a escolha certa. "Entre todas as opções que eu tenho para seguir, escolho aquela que acho mais conveniente".

Alguns passos:

- A promessa de Deus assegura que na Igreja não hão de faltar ministros e testemunhas de seu Reino, capazes de responder aos clamores e necessidades de nossos dias. Trata-se de encontrar, na abertura da graça batismal, a vocação própria de cada um e, em especial, saber discernir os "sinais de Deus" que, em todos os tempos, continua chamando discípulos para os ministérios ordenados, a vida consagrada e vocações leigas. Este trabalho supõe, na comunidade eclesial, fé viva e docilidade ao Espírito Santo.

- A cada um corresponde buscar o lugar concreto onde o Senhor o chama a dar a vida em favor dos irmãos.

- O discernimento requer dos jovens, dos que os acompanham e de toda a comunidade uma atitude de oração permanente, silêncio interior, para suscitar a voz de Deus, contemplação da vida e mensagem de Jesus Cristo e disponibilidade para responder a seu chamado, a fim de segui-lo mais de perto e assumir sua missão.

- Para que o processo de discernimento chegue a uma decisão madura e justa, é necessário identificar os sinais do chamado de Deus e de uma autêntica vocação:

- As qualidades humanas, a saúde física e psíquica, o domínio de si, a capacidade de relacionar-se com os outros para viver e trabalhar em comunidade.

- A fé viva em Jesus Cristo, a devoção à Virgem Maria, o gosto pela oração e pela Palavra de Deus, a participação nos Sacramentos, o serviço à comunidade, a doação de si mesmo aos mais necessitados, o espírito de sacrifício, que permita superar as insistentes atrações do prazer sem regras morais e do consumismo que sofrem os jovens, exacerbadas, nos ambientes urbanos e na cultura pós-moderna.

- A disponibilidade para formar-se, deixar-se guiar-se especialmente pela direção espiritual e preparar-se para o serviço eclesial.

- Haver demonstrado, na experiência, de alguma ação apostólica, uma atitude de serviço aos outros, demonstrado percepção de suas necessidades, compaixão e vontade de manifestar a eles a misericórdia de Deus.

- A reta intenção e clareza de motivação na escolha vocacional de total consagração ao Ministério Ordenado, à Vida Consagrada e ao especial discernimento do carisma congregacional.

- O acompanhante e, se possível, a equipe de acompanhantes, em atitude de respeito ao Deus que chama, procurarão observar os sinais da vocação, orientar o jovem para que ele mesmo os descubra e se disponha a responder com generosidade à sua vocação e atender às necessidades concretas das comunidades nas quais vai servir.

Especial atenção merece o discernimento das vocações de pessoas adultas. Sejam ajudadas a avaliar suas condições humanas e fazer a leitura da própria história, integrando-a à luz do chamado de Deus.

Atente-se que os sinais de vocação permaneçam sempre como expressão externa do chamado interno de Deus; as motivações internas fundamentam o valor ou a ambigüidade da opção; o testemunho e comportamento do vocacionado complementam a autenticidade da vocação.

Discernimento Vocacional
1. INTRODUÇÃO.


2. PRESSUPOSTO BÍBLICO.

O discernimento vocacional se apresenta na Bíblia mais como um exercício do que uma teoria.

Textos Fundamentais:
1. Lc 9,57-62 => as desculpas dos chamados
2. Lc 18,18-27 => Mestre, que devo fazer...
3. At 1,15-26 =>distinguir qual é a vontade de Deus
4. Gl 6,1-10 =>critérios para ser ministro.

Pauta Para Análise

1. Situações descritas nos textos e problemas apresentados.
2. Qual é o objetivo do discernimento no texto?
3. Quem o realiza?
4. Chave do discernimento (expressão ou expressões chaves e critérios fundamentais ).
5. Atitudes e exigências, disposições ou condições para o discernimento.

3. ETAPAS DO DISCERNIMENTO VOCACIONAL

3.1 PROMOVER E SUSCITAR

- Toda comunidade é co-responsável
- Criar um clima vocacional
- Sentimento de pertença à comunidade
- Criar ambiente para se ouvir o chamado.

Nas crianças => INFLUÊNCIA: -dos pais
- dos catequistas
- da escola

Nos jovens => -grupos
- comunidade

3.2 ACOLHER E ACOMPANHAR

- é importante o papel do orientador, do agente vocacional
- saber ouvir
- dar espaço para o jovem sentir-se útil
- inserção na comunidade
- apoio da comunidade.

3.3 FORMAR

- é etapa que terá continuidade a vida toda
- opção definitiva
- esta etapa tem duas vertentes: a pessoal, é o candidato que é protagonista, deve tomar uma opção livre com o apoio da comunidade e da equipe de formação ; e a vertente oficial, porque é a Igreja e o Instituto ou Congregação que deve aceitar ou não.

É nesta hora que a comunidade tem um papel fundamental, porque é a hora decisiva.

4. CONCEPÇÃO SOBRE VOCAÇÃO
(B. Giordini : Respuesta del hombre a la llamada de Dios)

4.1 CONCEPÇÃO ESPIRITUALISTA

A vocação consiste num chamado direto e especial que Deus dirige a cada um. É uma graça especial e que necessita de uma resposta.

4.2 CONCEPÇÃO PSICOLOGISTA

O acento desta concepção está na auto-realização, sem terem contra nem a realidade, nem o outro. A vocação se concentra no próprio sujeito, suas qualidades, aspirações, interesses e atitudes (incoerência ).

4.3 CONCEPÇÃO ANTROPOLÓGICO-EXISTENCIAL-CRISTÃ

Põe em relevo as relações entre Deus e o homem (transcendência ). A iniciativa porém é de Deus que se manifesta nas situações concretas, históricas que movem a pessoa (mediações). A vocação é dom e resposta (vocação-missão)

5. SÍNTESE SOBRE O DISCERNIMENTO

5.1 - O discernimento caracteriza a vida cristã: o cristão deve estar sempre atento aos sinais e à vontade de Deus.

5.2 - O discernimento vem da liberdade da pessoa. Não há um caminho pré-fixado, mas um convite para colaborar no plano de Deus.

5.3 - O discernimento afeta a conduta e a caminhada do cristão.

5.4 - O sujeito é o cristão, mas inserido dentro de uma comunidade.

5.5 - Critérios de discernimento:

- não amoldar-se aos critérios do mundo
- transformar-se pela renovação da mente
- deixar-se levar sempre pelos princípios do bem , do amor fraterno. O amor fraterno se configura como faculdade de discernimento.

5.6 - Acertar na opção se reconhece na conduta prática e pelos frutos do espírito.

6. ILUMINAÇÃO

Discernimento é perceber por onde devo andar para fazer a vontade de Deus.

Em Rm 12,1ss há dois caminhos:

- o da purificação -(negativo) não vos conformeis com o mundo;
- o da transformação - (positivo) transformar a mente.

6.1 O CAMINHO DA PURIFICAÇÃO

Não vos deixeis esquematizar por este mundo.

O esquema é uma realidade superficial por este mundo.

Este mundo: sociedade construída pelo homem.

Este mundo tem um esquema e o esquema é proposto. Paulo pede que nosso estilo não seja o estilo do mundo. Quais são hoje os modelos para a sociedade brasileira? Esquema do mundo : P.C., Collor, políticos...

Cuidado com o esquema. Dizer não aos esquemas que vão entrando na nossa vida. ( Por que vocês não podem comer de todas as frutas? Por que não pode comer o que é bonito e bom ao paladar? Gn 3). O coração torna-se enobrecido. Nossos canais ficam obstruidos (canal social e canal afetivo).

O esquema do mundo está em torno de Deus . O mundo afirma a presença de Deus, mas Deus não serve para nada . Presta homenagem a Deus, mas não permite que Deus entre em sua existência. Uma pessoa neste esquema presta culto, reverencia Deus mas não dá um espaço para Deus, não o deixa entrar em sua vida particular.

O esquema do mundo relativiza valores. Quando há relativos absolutizados em minha vida, tudo fica fora de foco, não me situo mais na história, tudo é errado (Adoraram a criatura, em vez do Criador - 1,18ss). Não há mais sintonia, mas loucura. O Deus que cultuo não tem nada a ver com a minha vida. O capítulo 2 da Carta dos Romanos acentua que o povo reconhece a Deus mas se liberta do esquema de Deus porque o centro é Deus e ele está em Deus. São as virgens imprudentes, tinham certeza absoluta de que
não haveria festa sem elas, e, no entanto houve. Tem certeza de que podem fazer o que quiser porque tem Deus na mão. Faço o que quero porque pertenço ao povo de Deus, sou escolhido, sou padre, sou religioso - religiosa...

Paulo propõe o seguinte caminho da perfeição:

a) oração: reconhecimento da fé;
b) jejum: fortificar o homem interior - auto - domínio;
c) esmola: reconhecimento do irmão.

6.2 CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO

"Transformai-vos renovando vossa mente"

Mente=> capacidade de se situar. Se não nos transformarmos não podemos nos situar. Cuidem para que a mente não caia na loucura.

A transformação da nossa mente é obra da gratuidade de Deus.

Ao tomar uma decisão abrir espaço para o Espírito Santo.

- que vosso amor cresça cada vez mais em conhecimento e em sensibilidade a fim de poderes discernir o que mais nos convém.

- que vocês sejam puros e irrepreensíveis na plena maturidade da justiça de Cristo.

- para a glória e o louvor do Pai.

A sensibilidade é um dos maiores critérios para o discernimento.

- mudança de um coração de pedra em carne ( Ez 36)

- solidariedade ( não é fácil perceber que existe outro)

- quem são nossos amigos?

- Quais são os carentes que são nossos amigos?

- Sensibilidade é perceber o que falta para o outro.



PRESSUPOSTO PARA O DISCERNIMENTO VOCACIONAL

1. Projeto de Vida Sacerdotal e Religiosa

- é um projeto centrado em valores absolutos e não em satisfação imediatas.

- se realiza mediante a renúncia em favor das pessoas.

Esta renúncia se faz em favor de:
* Deus , primazia de tudo. Ultrapassa os limites da filantropia.É o sentido único da vida.
* Deus encarnado - manifestado sobretudo nos pobres.
* Cristo que se atualiza constantemente na Igreja, lugar de encontro
homem-Deus.

- quando não há estas bases humanas e cristãs este projeto vocacional não poderá ser assumido.

2. Crescimento psicológico e espiritual

Estão intimamente ligados.

- um projeto de vida comprometido com Deus e com irmãos germina mais
facilmente se o sujeito encontra o equilíbrio interior libertando-se das
ansiedades, complexos, fantasias, dependências, inseguranças e conformismos.

- um projeto de vida germina mais facilmente se a pessoa:

* não está presa na busca da satisfação imediatas;
* sabe tolerar as frustrações sem deixar-se levar pela impulsividade;
* aceita os conflitos sem cair em depressões prolongadas;
* se alegra com êxitos sem desequilibrar-se emocionalmente.

- um projeto de vida germina mais facialmente nas pessoas que precisam
obscessividade de afeto e carinho.

- um projeto de vida que exige uma relação desinteressada com Tu transcendente será difícil numa pessoa com dificuldades de relação pessoal, excessivamente introvertida, a desqualificar os demais.

3. Como discernir o crescimento de uma vocação

Normalmente tomamos os comportamentos como manifestações autênticas de valores. Reza-se e obedece... É bom... logo tem vocação . Porém, nem sempre este esquema é certo, porque, nem sempre os comportamentos estão motivados por valores autênticos. Podemos aprender a fazer... ( desempenhar um papel ) e com certeza sem ser internalização de valores.
O verdadeiro discernimento vocacional não verifica tanto a presença dos valores presentes. Não se fixa tanto no que, mas no porque. Porque obedece? Porque reza?

4. Sinais da internalização de valores

Levar em conta três indicadores:

4.1 - uma atitude é expressão de valores transcendentes quando foi escolhida pelo grau de transparência, para testemunhar os valores no que se crê e não quando foi escolhido em virtude de sua capacidade de procurar satisfação.

4.2 - uma atitude, não é expressão de valores quando o indivíduo se apega indiscriminadamente a ela e tudo é condicionado por ela.

4.3 - quando uma atitude é vivida não como um meio, mas como um fim em si mesmo, corre o risco de ser desempenhado com legalismo e resignação. Em tudo há renúncias a certas satisfações e este preço se paga com alegria.

5. Motivações predominantes

Em base de todo comportamento há uma gama de motivações nobres e outras menos nobres. A pessoa é como um " Iceberg ", do qual só vemos a parte que emerge, porém, esta sustentada por uma massa gigante submersa. Vemos a ação, mas não o coração. Que busca o coração?
Não podemos ver o coração, porém, é o que faz com que viva ou morra. Conhecemos o coração através das atitudes. A atitude é muito mais que opinião. A opinião está na mente, a atitude está no coração.

A atitude contém elementos afetivos e volitivos que a faz mais resistente à mudanças.

6. Funções das atitudes


6.1 - Função utilitária e defensiva do eu

Busca recompensas ou evita castigos

6.2 - Função expressiva dos valores e função cognoscitiva.

Assume-se determinadas funções ou atitudes com a finalidade de realizar valores livres e objetivos ( maturidade).

7. Discernimento dos Espíritos

É a ajuda que uma pessoa dá a outra para que possa conhecer a vontade de Deus nela e respondê-la.

Duas formas:

- individualizar os sinais de Deus no indivíduo
- considerar a capacidade que a pessoa tem de reconhecer a presença de Deus a acolher sua ação.

Discernir não significa simplesmente dar conselhos, mas ajudar a ajudar-se. "Eu posso ajudar a viver segundo a decisão que tomou de ti mesmo sem que tenhas que depender de teu estado de ânimo momentâneo, nem de minha influência moral. Te ajudo em dizer o que deve fazer, mas como situar-se diante de Deus e diante de si mesmo". Se não se favorece a capacidade de resposta, tudo cai num espiritualismo de pias intenções.