Luz dos Povos

"Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas" (Is 42,6-7). O desejo da plena luz e da liberdade faz parte da natureza humana. Em todas as épocas da história, sobe dos corações o clamor, que soa sonho de justiça e de liberdade, sinceridade no relacionamento, retidão no pensar e no agir, o desejo da luz para iluminar os caminhos do mundo.

A luz dos povos é Cristo. O Concílio Vaticano II, cujo cinquentenário de abertura comemoramos há alguns meses, demonstrou o desejo de iluminar com esta luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (Cf. Mc 16,15). A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano e assume tal tarefa com empenho missionário. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que todos os homens e mulheres, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo (Cf. Lumen Gentium, 1). A Igreja sabe que é sua responsabilidade ser germe dessa unidade. Tem consciência de que a unidade da humanidade já foi conquistada por Cristo, mas se encontra continuamente diante de processos desafiadores e complicados para anunciá-la e concretizá-la. Se não forem entendidos à luz da misteriosa paciência e misericórdia de Deus, há o risco do esmorecimento.

Já a Sagrada Escritura testemunha que o povo da Antiga Aliança viveu de esperança. Foram séculos em que milhares de homens e mulheres mantiveram a luz interior que lhes vinha da promessa, certos de que Deus não pode faltar com sua palavra. Os profetas foram pessoas lúcidas, enviadas por Deus para reacender continuamente a chama da confiança no amor de Deus.  Sabemos também que foram muitos os que desanimaram ao longo do caminho, tanto que veio à tona o grupo dos que se conservaram fiéis. O "resto", "pobres de Javé", são expressões, ao lado de outras, que revelam a existência dessa gente de pele exterior e interior mais rígida, capaz de enfrentar as intempéries, teimosa na esperança.

Jesus Cristo, Deus verdadeiro e Homem verdadeiro, veio ao mundo para anunciar e ser Ele mesmo a Salvação, oferecida como graça a todos. Sua chegada foi preparada durante muito tempo, mas coube a João Batista (Cf. Lc 3,15-22) ser seu precursor e mostrá-lo presente, inclusive encaminhando-lhe seus próprios discípulos. Era um homem de têmpera, provado a partir de sua coerência interior, confrontada com e mediocridade reinante. Antes de completar sua missão no martírio, pelo testemunho da verdade, João recebe Jesus no Rio Jordão, para um Batismo de penitência, inadequado para aquele que é o Cordeiro que tira o pecado do mundo, por quem o próprio João desejaria ser batizado. Ali viu inaugurar-se o tempo novo, quando se manifesta o Espírito de forma de uma pomba e a voz do Pai assegura que Jesus é o seu Filho querido. Realizam-se em Jesus todas as promessas e este inicia a pregação da Boa Nova.

Nem todos o receberam, o que manifesta o maravilhoso e ao mesmo tempo terrível dom da liberdade. Mas do meio da multidão, a massa anônima começa a oferecer-lhe os que se tornaram discípulos. Entraram na escola do daquele que era a luz, ainda que muitas pessoas não o tenham acolhido. Jesus Cristo veio e trouxe exigência de uma decisão. Diante dele, não é possível meias medidas. Sua proposta de vida traz a plena realização nesta terra e na eternidade, mas o modelo de felicidade é diferente, pois passa pela Cruz, e não é possível, sob pena de sermos desonestos, diminuir as exigências do Evangelho. Em todos os tempos, quem quiser pode aderir ou não ao plano de salvação oferecido por Deus, em Cristo. Sabemos bem que temos um chamado de Deus a sermos, como cristãos, um povo corajoso, capaz de nadar contra a correnteza, coerente com o Evangelho. Quando formos e se formos uma minoria, que esta seja qualificada e mereça ser chamada sal, luz e fermento na massa.

Ora, se o Evangelho é o que existe de mais lúcido e adequado para transformar o mundo, onde se encontram as razões para tamanha distância do comportamento humano e seus valores? Se existe a sede do bem, da verdade e da luz verdadeira dentro das pessoas, há algo que bloqueia a aceitação da mensagem? Como superar estes obstáculos?
Além do citado argumento da liberdade humana e da presença do mistério da iniquidade, há que ser honestos e reconhecer que não é defeituosa a mensagem, mas certamente a transmissão da mesma. Quando as pessoas têm na verdade um encontro com Jesus Cristo, ele continua sendo aquele que fala como ninguém, que tem palavras de vida eterna, que faz bem todas as coisas. A nós cristãos, não só os católicos, mas todos os que confessam Jesus Cristo como Salvador, cabe a tarefa de apurar melhor a qualidade do testemunho, a linguagem usada, a vida das Comunidades Eclesiais, a clareza da pregação e a transparência em nossos processos organizativos e administrativos, para que seu nome chegue efetivamente ao ouvido e ao coração das pessoas.

Nas Assembleias do Episcopado latino-americano tem ressoado um convite insistente. Em Medellín se pedia para "alentar uma nova evangelização e catequese intensivas" (Mensagem da Assembleia de Medellin, 13) e também em Puebla (Documento de Puebla, 433) era assumido o desafio de "renovar sua evangelização, de modo que possa ajudar aos fiéis a viver sua vida cristã". Mas ressoa forte o programático e sempre  atual chamado do Beato João Paulo II, em Porto Príncipe - Haiti (Discurso ao CELAM, 09.03.1983, número 3), quando convidou a "uma nova evangelização: nova no seu ardor, nos seus métodos, na sua expressão". A Nova Evangelização veio a ser bandeira da Igreja em nosso tempo, com a recente Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos.

Se o início da pregação da Boa Nova, após o Batismo de João, desencadeou um processo de mudança profunda no mundo e nas pessoas, ou os apóstolos enviados por Jesus até os confins da terra assumiram, pelo dom do Espírito Santo que lhes foi concedido, venha novo o ardor, descubram-se novos métodos e novas expressões, pois nossa geração clama pelo Evangelho e dele tem direito.

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém-PA