GESTÃO POR CONSELHOS: Uma prática comunitária de gerir as Organizações

"E vendo as vossas obras glorifiquem o vosso Pai que está nos céus!" (Mt 5, 16) 

Muitos autores, estudiosos e pensadores são unânimes em afirmar que vivemos uma mudança de época. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, realizada em Aparecida (SP), em 2007, reconhece que o nível mais profundo desta mudança de época é o cultural (n. 44). Essa mudança de época se faz notar em todos os âmbitos da vida humana e toda a mudança de época também exige mudança de atitude e comportamento. Mudança do jeito de conduzir a Organização, isto é, deixar para traz as relações individualistas e construir novas ralações pautadas pela justiça, solidariedade, gratuidade e serviço, através da gestão por conselhos.

É bom afirmar que a gestão através de conselhos não é invenção deste ou daquele líder (bispo, superior ou ecônomo), pelo contrário, tanto na ótica jurídica civil, assim como as orientações da Igreja Católica, a gestão das organizações por conselhos é uma exigência. Entre outros documentos que nos orientam neste sentido, podemos citar o Código Civil Brasileiro e o Código de Direito Canônico, onde ambos determinam que a gestão das organizações seja feita através de conselhos[1].

Porém, muito mais que uma estrutura jurídica, a gestão por conselhos é incentivada pela Igreja, assim como pela Delegação Nossa Senhora aparecida, por se tratar de uma metodologia de gestão que permite "a vivência das relações essenciais, propostas por Jesus na ceia de despedida para a nova comunidade. Relações que geram a verdadeira comunhão... 'afim de que o mundo creia[2]"'. É uma metodologia que carrega um jeito Calabriano de gerir a Obra que, por meio da participação de irmãos e irmãs na tomada de decisão, gera comunhão, fraternidade e espírito de família.

Os Conselhos podem ser um instrumento, que se for bem conduzido, colaboram para que aja uma real unidade na missão e com ela, a atividade se torna "uma 'obra boa' e calabriana que repara e revela o rosto de Deus Pai no rosto de seus filhos e filhas que fazem parte da Obra. A atividade passa a ser uma profecia e uma 'publicidade' do amor do Pai” [3]. Neste sentido, podemos afirmar que a gestão por conselhos é "expressão simbólica da transcendência, que irrompe na imanência da organização” [4].

Além do mais, somente pelo fato dos conselhos serem formados por pessoas, carrega um grande significado teológico e carismático, para nós que fazemos parte da Obra Calabriana. Na ótica Calabriana, a gestão vai muito além da organização da assistência, do ensino e da pastoral, a gestão da Obra é chamada a levar para as pessoas uma formação integral como afirma, também, nossas regras:

"O Nosso trabalho de educação, de assistência, não deve ser considerado nem reduzido a uma simples suplência onde existem carências da parte da sociedade civil. A nossa presença nesta atividade é uma tarefa de fé e de Igreja e deve exprimir a originalidade do Evangelho"[5]. (Diretório das Constituições PSDP nᵒ 28, p. 54)

Nesta passagem podemos concluir que o jeito, a metodologia que empregamos para conduzir a Obra é tão importante quanto o que somos chamados a fazer. Na Obra Calabriana, os fins não justificam os meios, pois os meios utilizados para chegar ao fim da assistência, da educação, da pastoral e de uma boa gestão precisam estar alinhados com o carisma e a espiritualidade. Isto é, para uma formação integral da pessoa, a metodologia e o jeito de gerir a atividade deve expressar e testemunhar a fé que professamos como muitas vezes repetia São João Calábria, nossa prática deve expressar aquilo que cremos, e ainda, sejamos evangelhos vivos.

A gestão por conselhos, por se tratar de uma metodologia de gestão que procura vivenciar na prática os valores essenciais como: valores comunitários, participativos e solidários, desencadeia um verdadeiro confronto com os princípios individualistas preconizados pela sociedade contemporânea. Desta forma, a gestão por conselhos torna-se uma verdadeira ação anti-hegemônica, que se confronta com um sistema dominante. Assim como Jesus Cristo, que não quis realizar sozinho a obra do Reino, mas chamou apóstolos e discípulos para serem seus colaboradores, a gestão realizada por conselhos é um jeito de agir na condução da Organização, que evangeliza.

Porém, não basta à estrutura administrativa ser formada por conselhos para que os relacionamentos essenciais sejam vivenciados no interior da atividade. Ele se torna verdadeiro testemunho do reinado de Deus se os conselheiros, de modo especial o coordenador ou diretor do conselho, conscientizarem que os conselhos são formados por pessoas que, a maneira de sujeitos unitários, filhos e filhas de Deus e possuidores do Espírito Santo, deliberam os atos administrativos, pois o conselho é o órgão gestor da atividade pela qual foi constituído. Nesta concepção, os conselhos não são somente consultivos, isto é, se um grupo de pessoas fica a disposição do diretor para serem consultados quando ele achar necessário e no final a decisão é dele, esta concepção é errada, pois é uma concepção de conselhos onde eles deliberam, tomam decisões, usando o dito da gestão colegiada, "o conselho é que tem um diretor e não o diretor que tem um conselho".

Além do mais, se os conselhos forem bem conduzidos, impedem que o gestor (a) tome decisões de forma individualista e assim impedindo que ele se torne uma "pessoa autossuficiente, autocrática e geralmente maquiavélica que em nome do resultado do trabalho evangelizador, exclui os próprios evangelizadores, fazendo que os fins justifiquem os meios e vivendo a mentalidade da sociedade moderna da política de resultado[6]".

Enfim, podemos afirmar que a gestão por conselhos é a expressão da comunidade que traduz os valores do Reinado de Deus: onde todos são irmãos e irmãs, existe igualdade entre homes e mulheres, tem transparência no uso dos bens, a relação é de amigos e não de empregados, o poder é exercido como serviço, a comunidade, o conselho é o lugar de perdão e reconciliação, a oração se faz em comum e, desta forma, o Conselho é onde se vive a missão com alegria.

Ir. Gedovar Nazzari
PSDP

[1] Ver Lei que regem as Associações Lei federal n° 10.406 de 10/01/2002, Titulo II das Pessoas Jurídicas, Capítulo I Disposições Gerais, Artigo 52. Código de Direito Canônico, Art. 132 e 137.
[2] Volume I - Para que o Mundo Creia, Discernimento e avaliação de nossas atividades, 2013. Introdução, p. 1.
[3] Volume III - Para que o Mundo Creia, Discernimento e avaliação de nossas atividades, 2013. P. 3. Grifos do autor.
[4] Agenor Briguenti, A Igreja Perplexa. As novas perguntas, novas respostas, Paulinas, São Paulo, 2004, P. 104.
[5] Diretório das Constituições dos Pobres Servos da Divina Providência, nᵒ 28, p. 54.
[6] CNBB, Palavra de Deus na Vida. Reflexão Lc 6, 12-19. Dia 09/09/2013.