As Sete Palavras de Maria

Primeira Palavra
"Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?" (Lucas 1,34)

Nesta primeira palavra, Maria pergunta e responde ao mesmo tempo. Com esta pergunta, Maria pede uma explicação, não propriamente para compreender o plano de Deus, mais para cumpri-lo. Ela não sabe como conciliar duas realidades incompatíveis, a chamada de não "conhecer um homem" e o chamado para ser mãe. A pergunta de Maria descreve seu desejo íntimo, sua inclinação à virgindade. Segundo a cultura de seu tempo, onde a virgindade não estava bem vista, ela estava noiva de José, porém seu coração se orienta em outra direção. Este desejo era a melhor preparação, a disposição mais preciosa para cumprir a missão que Deus a destinava: ser mãe do Messias de modo virginal.

A mãe de Deus, a mulher que o Altíssimo prepara para ser sua mãe, não pode ser colocada num plano de uma mulher comum, desde o ponto de vista psicológico, nem do ponto de vista religioso. Maria esvaziando-se chega à plenitude. Somente a virgindade corporal seria sua pobreza. Sua virgindade espiritual consiste na atitude de sua alma que se sente pobre e Serva do Senhor e se abre aos desígnios de Deus. Abandonada cegamente a Ele. Faz sentido para Reino dos céus (Mateus 19, 12) para facilitar uma disponibilidade plena, permitindo ao coração não dividido, a entrega total, com todas as suas forças a Jesus Cristo e a sua Igreja e aos seres humanos.

A virgindade, tão menosprezada no judaísmo, foi eleita por Maria como uma forma de pobreza, é uma manifestação de que a salvação vem de Deus, desse Deus que, como manifesta seu modo de atuar ma história de seu povo, escolheu os meios mais pobres para levar a cabo a salvação. Para a tradição da Igreja, a concepção virginal de Jesus, não é, pois, um dogma periférico, mais um caminho fundamental que nos conduz ao dogma da encarnação; é um sinal da divindade de Jesus Cristo.

Segundo Palavra
"Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.” (Lucas 1, 38)

Esta segunda palavra trata de uma completa disponibilidade para tudo que agrada a Deus, atualizando a atitude do salmista (Salmo 40,9), o melhor da atitude do Messias (hebreus 10,7). Estas são as palavras de submissão total à vontade de Deus.

A chave da santidade da Virgem, o segredo de sua vida o proclamou nesta palavra. Maria, ao chamar-se escrava do Senhor declara que é sua propriedade, aberta por completo ao mistério divino. Ao se definir escrava descobre a profundeza de sua alma religiosa, como alguns dos pobres do Senhor que, em sua humilhação, colocam toda sua confiança no Senhor.

Ao fazer-se escrava nos mostra uma Maria plenamente entregue ao plano do Pai. Trata-se de sua inteira disponibilidade. Sem entender tudo, nem perguntar demasiadamente, confiando desde sua pobreza no amor do Pai, deixa fazer-se o Plano de Deus sobre ela e a todo desígnio de salvação para o mundo.

A grandeza de Maria está em seu "faça-se", em acolher incondicionalmente os desígnios de Deus. Nesta palavra é onde melhor se faz transparente o modelo do crente: o que se abre para dizer sim a Deus. O "faça-se" da Virgem, mais que uma virtude, nos fala da santidade plena. Maria acreditou e se entregou intensamente ao caminhou em direção do rosto do Senhor.

Maria compreendeu que tudo o que iria suceder seria obra da graça, por isso disse: “Faça-se em mim”. Santo Agostinho afirma que Maria “concebeu Deus em seu coração antes que em seu corpo”.

Terceira Palavra
"Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel." (Lucas 1, 40)

Palavra de delicadeza, de cortesia, de bondade, é um convite para chegar até o último detalhe na prática da caridade. É fazer a virtude amável, fazer o cristianismo tão atrativo que nossa vida produza uma chama como o das primeiras comunidades cristãs.

Desta atitude de Maria emerge uma figura feminina de perfil muito específico: delicada, focalizada, silenciosa. A figura de Maria que emerge desta breve cena evangélica é cativante: sua alegria contagiosa, sua simpatia, seu carinho, sua fé compartilhada, sua disponibilidade ao serviço, seu encanto... Toda esta cena nos presenteia com a pintura mais deliciosa da Senhora.

Pôs-se a caminho com presteza e nos ensinou duas atitudes que devem ter os apóstolos: servir ao próximo e levar Jesus Cristo dentro do coração para poder comunicá-lo. E assim guia nosso caminhar pelo tempo e no pelo mundo.

Quarta Palavra
"E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre." (Lucas 1, 40)

Palavra de gratidão e amor. A atitude da criatura, quando ela mesma se compreende como tal, é a surpresa do ser, o temor de ter sido escolhida e sentir gratidão absoluta. A Virgem não tinha somente uma vocação maternal de intercessão e de socorro, mais uma vocação de louvor e adoração.

Maria, nas duras condições de sua vida exulta de alegria infinita por saber que é amada por Deus, por poder amá-lo.

A Senhora creu na escolha de que foi objeto da parte de Deus. Deixou-se amar por Deus e se converteu em um prodígio de graças. Estas maravilhas se realizaram por ser Maria tão pobre, tão limpa de coração, tão aberta à verdade e tão audazmente humilde.

Quinta Palavra
“Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição." (Lucas 2,48)

Palavra de equilíbrio. Nossa Senhora sentiu-se entristecida quando perdeu o filho e alegre ao encontrá-lo, expressa ao mesmo tempo a dor e a alegria.

A pergunta de Maria lastima a perda do Filho (Lucas 2,48), se faz linguagem do amor, de docilidade plena, ao mesmo tempo manifesta sua pobreza, sua intima humilhação, sua entrega fiel e ardente aos planos divinos. Aqui se poderia sublinhar a fecundidade que abarca o silêncio de Maria ante a misteriosa resposta de seu 
Filho.

Sexta Palavra
“Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho.” (João 2,3)

Palavra de suplica, de pedido. A Virgem sugere a Jesus seu primeiro milagre e de algum modo antecipa o começo de sua vida pública. Ainda que Jesus descarte seu pedido, Maria não é contestada e por isso ela confia, espera e alerta os serventes para que prestem atenção no que seu Filho falará. São João parece haver escolhido esta atitude da Virgem que manifesta o papel que terá para sempre: exporá a Jesus as nossas carências, enquanto nos seguirá pedindo que devemos cumprir o que seu Filho nos manda fazer.

"Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus.” O papel da mãe de Jesus foi contribuir para que a festa de casamento não se estragasse que não ficasse mal aquela família, e que não acabasse a alegria.

Aqui devemos sublinhar sua sensibilidade de mulher e de mãe. Parece ser a primeira que se dá conta de que corre risco a festa. "Não tem vinho", de modo mais natural menciona uma necessidade para que o Filho a socorra. Apresenta a situação, intervém, chama a atenção de Jesus. Seu pedido é discreto porque confia no Filho. Este é o estilo da oração confiante. Maria diz o que sente; Jesus dará a solução.

Aprofundando neste episodio das bodas de Caná, se vislumbra a meditação material de Maria, uma meditação totalmente dependente de Jesus Cristo e que de nenhum modo pode ofuscar, pois se trata de uma meditação de intercessão: a Virgem pede pelas necessidade dos homens e mulheres.

Sétima Palavra
"Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser." (João 2,:5)

Mediante esta palavra, nos coloca no caminho até Jesus Cristo. Ela é o caminho que conduz ao verdadeiro Caminho (João 14,6). Com esta palavra nos ensina o caráter de vinculo que tem a devoção mariana, devoção que nunca poderá ser tomada como uma peça a parte, mais é o melhor caminho para glorificar a Deus e colocar os cristãos em uma vida conforme a vontade divina. A tarefa de Maria e de infundir nos discípulos uma fé que seja mais vivida em seu Filho. A Virgem é o caminho pelo qual o Espírito Santo conduz ao Pai.

Maria é a primeira que acreditou e seguiu a seu Filho; por isso nos orienta até Ele, transmitindo-nos sua fé, repetindo o que um dia disse em Caná. A devoção mariana não separa, mais leva a Jesus, a fazer o que ele nos diz, e viver o evangelho.

Com estas palavras Maria assume uma função nova, evangelizadora e missionária. Ela tem acreditado em seu Filho, tem escutado sua palavra e a tem cumprido. Agora se dirige aos homens e mulheres para que façam o mesmo. Não só é uma crente, mais a promotora da fé. Com estas palavras nos dá o melhor conselho e nos mostra o melhor caminho para a nossa vida.

São João de Ávila chamava de “o breve sermão da Virgem” a estas palavras que Maria dirige aos serventes das bodas de Caná: “que breve sermão, mais muito consistente! Com estas palavras pregou tanto como Isaias, São Paulo e São Lucas, e todos os apóstolos e profetas”. Esta sétima e ultima palavra, quantos cristãos têm levado a ser fiéis a Jesus Cristo!

Conclusão

Se “a boca fala do que lhe transborda do coração” (Mateus 12, 34), como disse o Senhor, nos ao meditarmos as sete palavras de Maria, nos damos conta que seu coração está cheio de pureza virginal (Primeira palavra), de obediência submetida (Segunda palavra), de carinhosa cortesia (Terceira palavra), de humildade reconhecida (Quarta palavras), de dor resignada ( Quinta palavra), de misericórdia compassiva (Sexta palavra) e de confiança ilimitada (Sétima palavra); é tudo fruto do mais ardoroso amor.
Autor: Escrito por Claúdio Carvalhinho