A PROVIDÊNCIA EM SÃO JOÃO CALABRIA

“A Divina Providência é como uma terna mãe, que tudo dispõe para o nosso bem, ou melhor, para o nosso maior bem. Devemos sentir-nos como sendo carregados pelas suas mãos maternais”. (CR 2550, 23.06.1949)

Padre João Calábria experimentou claramente a Providência em sua vida e nela sustentou o carisma de suas fundações. Mas como nasceu esta profunda convicção em sua vida?

João Calábria era o sétimo filho de uma família cristã humilde e pobre que o acolheu com alegria quando ele nasceu em Verona, Itália, aos 08 de outubro de 1873. Seu pai era um sapateiro e sua mãe ganhava a vida como empregada doméstica. A morte do pai se deu quando João era adolescente, atrapalhando sua carreira acadêmica, porque teve que trabalhar para ajudar a sustentar a família. Esta situação afetou o seu desempenho escolar.

A mãe pediu ajuda a um Padre conhecido, de sobrenome Scapini, que dirigia a Igreja de São Lourenço, que freqüentava. Este percebeu que o menino tinha um bom coração e um desejo sincero de ser padre. Ajudou-o então a iniciar a formação sacerdotal e não poupou esforços para que ele entrasse no seminário. A situação financeira da família só lhe permitiu estudar como aluno externo, e assim permaneceu por três anos até cumprir o serviço militar.

As circunstâncias de sua vida, especialmente a experiência de precariedade que provou em sua infância e juventude, juntamente ao ambiente de fé em que cresceu e generosidade e atenção das pessoas como a do padre Scapini, contribuíram para formar em João Calábria um coração bom e sensível às pessoas necessitadas. A primeira prova ocorreu numa noite fria de 1897, quando, após a visita aos doentes, encontrou uma criança na porta de sua casa tremendo de frio. Era um menino de seis anos e parecia treinado para mendigar. Calábria o acolheu e convidou a entrar, escutou sua história, deu-lhe comida e depois uma cama para dormir e se aquecer. Depois procurou ajuda até conseguir colocar o menino num instituto.

Com muito esforço, renúncias e ajuda de benfeitores, especialmente do Pe Scapini, João Calábria foi ordenado sacerdote em 1901. Iniciou o trabalho pastoral na paróquia de Santo Estevão, e, desde o início, na sua casa paroquial passou a acolher os doentes, os idosos, os pobres e quem precisasse de um gesto de caridade.

O jovem Pe Calábria cuidava especialmente dos meninos abandonados que encontrava, os considerava como presentes da Providência e esforçava-se de todas as formas para prover-lhes casa e educação. Para alguns dos mais pobres não conseguia encontrar lugar e então os acolhia em sua casa e cuidava deles com a ajuda de sua mãe.

Aumentando os casos necessitados, aconselhou-se, procurou ajuda e finalmente, aos 26 de novembro de 1907, uma modesta casa que lhe fora posta à disposição pelas Irmãs da Sagrada Família de Verona, foi aberta com cinco meninos. Foi auxiliado neste trabalho por pessoas generosas dentre as quais constituiu o primeiro grupo de colaboradores, alguns dos quais, depois de prolongada reflexão e oração, sentiram-se chamados a estar com ele permanentemente.

Foi assim que nasceu a Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, que no início não se chamava assim mas apenas “Casa dos bons meninos” e depois, na medida em que crescia, o Pe Calábria chamava de “a Obra da Divina Providência”. Aos primeiros colaboradores Pe Calábria chamou de irmãos e deu-lhes regras de vida e ação muitos simples e práticas como “considerar-se como irmãos e como tais amar-se um ao outro e ajudar-se especialmente na vida espiritual”; “viver totalmente abandonados à Divina providência”; “esforçar-se de todas as formas pela saúde dos pobres meninos abandonados, para mostrar a eles e ao mundo que Deus existe, pensa e cuida de suas criaturas”.

Ainda nos primeiros tempos o Pe Calábria percebeu a necessidade do ramo feminino da Obra e aos Pobres Servos juntaram-se as Irmãs Pobres Servas da Divina Providência e, assim que a Obra foi crescendo e espalhando-se pelo mundo juntou-se também grande número de leigos e leigas colaboradores. Juntos formamos a Família Calabriana que tem como missão (finalidade) específica: “Buscar o Reino de Deus vivendo unicamente de fé, através do abandono total a Deus Pai e à sua Providência, sem angústias nas dificuldades, sem ânsias, sem cálculos humanos, sem preocupações, na certeza de que nada de necessário faltará, porque Deus é fiel às suas promessas. (Constituições nº 8). Esta missão deve estar em todos os programas ou projetos de uma atividade calabriana.

A pobreza, as privações e tantas adversidades portanto, não impediram ao Pe Calábria de progredir nos estudos e crescer na fé e na confiança em Deus Pai e na sua Providência, que se manifestou de muitas formas, especialmente através das pessoas que o ajudaram, sendo Pe Scapini apenas um exemplo. Sua experiência de vida o levaram a propor o caminho do abandono à Divina Providência para sua família religiosa, isto é, para todos nós.

ABANDONAR-SE À DIVINA PROVIDÊNCIA

Pe. Calábria usava muito a palavra abandono no sentido de “entregar a Deus Pai a nossa vida com tudo aquilo que temos no coração”, porque, se Deus é Pai, se é Amor, se Ele pode tudo, não há porque não confiar nele.

Também usava a palavra abandono no sentido de “colocar-se com confiança nas mãos do Pai”, isto é, de entregar a Deus todos os aspectos da vida: a saúde e a doença, a família e as pessoas queridas, o presente e o futuro, o lugar de trabalho, o sucesso e os fracassos, ...; enfim, entregar tudo. Vejamos o que ele escreveu:

À fé vamos unir, conforme nosso espírito, uma confiança sem limites, um terno e filial abandono na paterna, sempre vigilante e amável Providência divina.

Deus é Pai, cuida de nós e dos que nos são caros; nada escapa aos seus olhos; nada pode acontecer-nos improvisamente. Tudo é organizado e orientado pela sua infinita sabedoria, potência e bondade, sobretudo, poderíamos dizer, pela sua bondade.

Não há mãe que ame tanto uma criança como Deus ama a todos e a cada um de nós. Tudo Ele alcança, chega a tudo ainda mais e melhor do que a luz do sol ao fio da relva, ao átomo perdido nos espaços. Ele contou até os cabelos de nossa cabeça, e nem um sequer cai ao chão sem Ele saber.

As aves do céu, que não semeiam e não enchem celeiros, são diariamente alimentadas por Ele que providencia, ao mesmo tempo, roupagem maravilhosa aos lírios do campo. Por que, então, haveríamos de ficar preocupados por nós e pelas pessoas queridas?

Alguém poderia dizer: mas porque então tantos lutos e dores, tantas provações e desgraças? E aqui parece-me ouvir quase que o eco de muitas vozes dilacerantes: são mães, esposas, irmãos, irmãs chorando seus ente queridos que tombaram no campo de batalha ou foram dispersos; que perecem entre as dificuldades e as privações, ou nos terríveis campos de concentração sem nenhuma palavra amiga e boa, talvez sem uma oração e nem uma lágrima. E os que o furacão levou, talvez sejam os mais bondosos, talvez os que mais oravam e não foram ouvidos e atendidos.

Que adianta, então, uma vida virtuosa? Que adianta orar e fazer o bem? Assim falava também Ana ao seu santo esposo Tobias, visitado por tantos infortúnios apesar de suas orações, esmolas e caridade em sepultar os mortos. Mas Tobias, cheio do espírito de Deus, com plena confiança na Providência divina, repreendeu-a dizendo: “não fale assim, porque nós somos filhos de santos e aguardamos aquela vida que Deus dará aos que não perdem nunca a sua fé nele”.

Amados irmãos, vamos aprender nós também, a coordenar a vida presente com a vida futura; não esqueçamos de que estamos no exílio, longe de nossa verdadeira Pátria, e de que este é o tempo da provação. Lembremo-nos de que os nossos parentes próximos ou distantes, em qualquer situação e circunstância, estão sempre nas mãos de Deus, portanto, em boas mãos, e de que, se nós e eles alcançarmos as graças que pedimos, são reservadas para nós, em lugar delas, outras graças, sem comparação mais preciosas e importantes. “Os meus caminhos não são os vossos caminhos”, diz o Senhor. Confiemos nele, humilhando-nos sob a sua mão poderosa, pois Ele é sempre Pai para nós e, quando nos deixa no sofrimento, não nos ama menos do que quando nos consola. (Carta XLVII, Epifania de 1946)

Foi, portanto, o abandono em Deus e na sua Providência que deram ao Pe Calábria a confiança e a coragem necessárias para fundar e fazer crescer uma grande Obra, a Obra da Divina Providência, mesmo no meio de muitíssimas dificuldades e sem garantias humanas e materiais que garantissem sucesso para tal empreendimento.

SERMOS PROVIDÊNCIA

Abandonar-se à Providência divina não significa acomodar-se e esperar que tudo caia do céu; muito pelo contrário. O amor invisível de Deus, a sua providência, só se tornarão visíveis pela colaboração humana, pela nossa colaboração.

Pe. Calábria compreendeu que sua experiência do amor de Deus, da Providência em sua vida, não era um dom só para si mas para todos e especialmente para os mais necessitados, para aqueles por quem ninguém olha: os pobres, os doentes, as pessoas idosas, etc. Dizia ele que cabe a nós hoje “mostrar ao mundo que Deus existe, que Deus não é estrangeiro e sim Pai e cuida de nós com a condição de que confiemos nele e nos comprometamos com aquilo que nos cabe, isto é, procurar o Santo Reino de Deus”. (cfe. Grande programa, pg 6).

Como podemos ser instrumentos da Providência de Deus hoje, conforme a nossa missão?

Uma boa sugestão nos vem do Papa Francisco, que, ao proclamar o Ano Santo da Misericórdia, que estamos vivendo, nos convida a redescobrir as obras de misericórdia sugeridas no Evangelho de Jesus, em Mt. 25, 31-47. Tem as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos e, tem as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar pelos vivos e defuntos. Praticá-las é uma forma de ser instrumentos da Providência de Deus.

Outras frases de São João Calábria para meditar:

"O espírito de nossa Obra quer que tenhamos sempre uma ilimitada confiança, um terno e filial abandono na paterna, sempre vigilante e amável Providência Divina".

"A fé na Providência seja sempre o nosso baluarte, e a nossa rocha; lembremo-nos de que Ela nunca falhará, se fizermos a nossa parte".

"De nossa parte trabalhemos, façamos como se tudo dependesse de nós e depois deixemos a Deus e à sua Providência".

Para aprofundar-se na espiritualidade da Providência:

Evangelho de Mateus 6,25-34: ... A “carta magna” da Obra.
Salmo 32: Hino à Providência de Deus
Salmo 103: Hino a Deus Criador

Bênção da Providência

Que a benção da Providência: Amor e Ternura de Deus nos acompanhe! Que ela nos confirme na confiança e na coragem, no abandono e na audácia, na alegria e na entrega, na esperança e na pobreza, na simplicidade e na caridade. Que ela nos dê a visão clara da caridade e nos faça compreender profundamente o mistério da vida, o tempo, a hora e o lugar, o projeto do Pai, as exigências do reino, a nossa missão. Que ela realize em nós e através de nós seu plano de reconstrução, de reconciliação.