A Palavra de Deus na Espiritualidade Calabriana

Palavras de São João Calábria

NÓS SÓ NOS RENOVAREMOS SE VIVERMOS O EVANGELHO

                     A hora que estamos atravessando é uma hora difícil; ninguém sabe em que tudo isso irá dar. Sem dúvida alguma, Deus saberá tirar grandes bens dessa confusão geral de princípios e vivências; mas por que caminhos chegaremos a esses bens? Estamos caminhando para uma nova ordem de coisas; também nós nos devemos renovar. Mas só nos renovaremos, se vivermos na prática o santo Evangelho, se formos nós mesmos Evangelhos vivos.
            Devemos confessá-lo: há uma discordância demasiada entre o que o Evangelho ensina e aquilo que nós praticamos.
          Precisamos acabar com este contraste. Aí, sim, já não poderão mais dizer que a Igreja já teve a sua época e que ela não corresponde mais às exigências de hoje.
          Retornemos às fontes puras e genuínas do Evangelho, vivendo como viviam os primeiros cristãos, sem egoísmos, considerando que todas as pessoas pertencem a Deus, mostrando desinteresse em nosso trabalho pelo bem.
          Jamais aconteça que cheguemos a nos preferir aos outros, arvorando-nos em importantes, como se fôssemos alguma coisa, ou pior do que isso, em reformadores: por favor, reformemo-nos a nós mesmos – isso, sim –e digamos sempre que não passamos de uns pobres servos de Deus, que nos esforçamos por nos santificarmos a nós mesmos de acordo com o nosso espírito, que é espírito de humildade e de abandono nas mãos de Deus.

A PALAVRA DE DEUS

          Quanta importância se dá aqui na terra à palavra dos homens! E está certo. Mas quanto mais valor não devemos nós dar à Palavra do Senhor! Acreditemos, portanto, no Senhor e confiemos na sua Palavra.
          Cada uma das palavras de Deus – permitam-me a expressão – é consagrante, sacramental: realiza o que diz.
          É claro que Deus não tem pressa; Ele tem à sua disposição a eternidade. É por isso que Ele vai deixando que os seus desígnios amadureçam gradativamente, um pouquinho de cada vez: é segredo das obras de Deus. Acreditemos, portanto, em todas as palavras do Santo Evangelho. Honremos a Deus com essa fé plena e generosa. Que não se dirija a nós aquela queixa do Senhor: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”. Vivamos, portanto, a nossa época; trabalhemos, valorizando a nossa vocação de cristãos.
          Façamos muito caso do pouco que a Providência nos confiar e, assim fazendo, já teremos colaborado com o trabalho divino para o progresso da humanidade no caminho traçado por Deus. A humanidade sempre foi, mas é, especialmente agora, como uma única família, tendendo a se unir cada vez mais e a conservar-se intimamente unida.
          A lei dos vasos comunicantes também tem sua aplicação na vida moral e espiritual; cumprindo com a nossa parte, por menor que seja aparentemente, estamos nos comunicando com todos os que trabalham na Igreja de Deus e realizam os desígnios divinos.
          Tudo é grandioso, nada é sem importância, quando é feito em honra da Majestade infinita de Deus. É só fazê-lo bem, é só fazê-lo no espírito do Senhor, sustentados e guiados pela sua Graça. Tenhamos sempre diante dos olhos o exemplo de Jesus: Ele, que era Filho de Deus, não se recusou a ser um pobre operário.

PRECISAMOS VOLTAR ATRÁS, QUANDO TIVERMOS ERRADO O CAMINHO

          Nunca, mas mesmo nunca deixarei de lhes dizer e lhes repetir que sejam luz, vida, contínuo convite para o santo Evangelho, para a vida dos Apóstolos e dos primeiros cristãos.
          A humanidade errou o caminho; precisa, portanto voltar atrás.
          Não adianta enganar a si próprio, é preciso retornar atrás, retomar o caminho certo. E qual é esse caminho?
          Não é outro senão o da observância das leis divinas.
          Precisamos retornar para Deus, para Cristo, para o seu Evangelho, o qual devemos cumprir, gostaria de frisar, ao pé da letra, porque é a Palavra de Deus, viva e perene, que nunca muda, nunca deixa de vigorar.
          Vejam, entretanto, como a maioria dos homens vivem, pensam e agem como se tudo dependesse deles; não se preocupam com Deus e com as suas leis, cuidando apenas da vida presente e do bem-estar material e físico.
          Infelizmente, o homem pensa que faz tudo sozinho, que se basta a si mesmo.

RETORNEMOS AO EVANGELHO SEM INTERPRETAÇÕES ARBITRÁRIAS

          Retornemos à prática do santo Evangelho sem mutilações, sem interpretações arbitrárias, mas procurando penetrar no seu sentido e espírito puro e genuíno para, depois, ajustarmos a ele nossas opiniões e nossa vida.
          O Evangelho, por exemplo, fala-nos de um Deus que é Pai, que se preocupa conosco bem mais que os pássaros do ar e as flores do campo e que, portanto, jamais nos deixará faltar o necessário, desde que busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça.
          O Evangelho exorta-nos a não acumularmos riquezas que a ferrugem e a traça destroem e que os ladrões roubam, mas a adquirirmos tesouros no céu, para o qual tão somente fomos feitos.
          Ensina-nos que a vida presente é apenas uma preparação para a vida futura, a vigília de uma grande festa que durará para sempre.
          Conforta-nos na dor e nas inevitáveis provações e sofrimentos, garantindo-nos que, depois, nossa tristeza se transformará em alegria.
          Alimenta a nossa fé e esperança, mostrando-nos a eficácia absoluta da oração.
          Quer que nos amemos uns aos outros, como Jesus nos amou, isto é, até ao sacrifício de nós mesmos e de tudo o que é nosso e ensina-nos a essência da religião, que consiste exatamente na caridade, mas numa caridade de obras e não de palavras.
          E, como que confirmando este novo e grande mandamento, fala-nos a seguir, dando-lhe o máximo destaque, da inefável caridade de Deus para com o homem, graças à qual primeiro o homem é elevado ao plano sobrenatural, ficando assim destinado a ver e possuir a Deus para sempre, e em seguida, após a queda de Adão, não é abandonado a si mesmo, mas resgatado e redimido pelo Sangue de Jesus, Filho de Deus feito homem, que se imolou no altar da Cruz pelos nossos pecados. Eis aí as grandiosas, consoladoras e imutáveis verdades que o Evangelho nos apresenta.

EVANGELHOS VIVOS

          Irmãos no desempenho de vossos cargos e obrigações, em contato com os jovens, nas relações necessárias com as pessoas do mundo, pronunciai sempre aquela boa palavra do vivo sabor evangélico e, sobretudo, dai o exemplo de uma vida prática vivida de acordo com o santo evangelho.
          Enxergai a Deus no pobre que encontrardes no caminho, na pessoa com quem tiverdes de tratar, nos jovens de cuja educação estiverdes encarregados, nas almas que a divina Providência fizer se aproximarem de vós.
          Retornemos à prática do santo Evangelho, de todo o Evangelho, sem mutilações, sem interpretações arbitrárias; mas procurando penetrar no seu sentido e espírito puro e genuíno, ajustando a ele nossas opiniões e nossa vida.
          Acabou a época das meias medidas; vivamos na realidade, confiemos no Evangelho.